China impede acesso a redes sociais estrangeiras, mas mantém perfis oficiais ativos

sábado, 04/04/2026 – 19h40

TikTok, Instagram, X, Facebook, WhatsApp, YouTube, Telegram, Snapchat, LinkedIn. É longa a lista de todas as redes sociais ou plataformas online estrangeiras banidas na China. O que muitas têm em comum, além das restrições de acesso, é o fato de que o regime de Xi Jinping mantém perfis oficiais ativos nelas.
 

São contas de jornalistas, autoridades do governo, mídia estatal, consulados e embaixadas, muitas delas administradas dentro do próprio país. Enquanto isso, cidadãos dependem do uso ilegal de VPNs -que desviam a conexão por um servidor fora da China e contornam o bloqueio da internet- para acessar conteúdo produzido em outras nações, seja de entretenimento ou jornalístico.
 

A tática, segundo estudos, especialistas e organizações de direitos humanos, é uma forma de censura e controle interno do lado de dentro, e de moldar uma boa imagem do país para quem o observa de fora.
 

À reportagem, o Ministério das Relações Exteriores da China afirma que as práticas estão de acordo com a lei. “Abrimos contas em plataformas de mídia social no exterior para nos comunicarmos melhor com o público externo, apresentar melhor a China e aumentar o entendimento mútuo”, diz, em nota.
 

Fazer com que as informações sobre o país cheguem a estrangeiros sob a lente de Pequim é uma estratégia que o regime não faz questão de esconder. Em uma reunião do setor de publicidade do Partido Comunista Chinês no início de janeiro, o membro do Politburo, Cai Qi, afirmou que reforçar a capacidade de comunicação internacional e a influência da China é uma prioridade da legenda.
 

Um exemplo desse movimento são os canais em inglês de veículos estatais no Instagram. Os perfis retratam uma China em que prevalecem o bom senso, a solidariedade e o respeito, sem deixar de lado as conquistas científicas.
 

O perfil em inglês do China Daily, principal jornal do país, acumula cerca de 1,6 milhão de seguidores com inúmeras atualizações diárias. Já o CGTN, principal canal de notícias em língua inglesa, tem 2,6 milhões de seguidores e mais de 25 mil publicações.
 

As propostas editoriais dos veículos seguem cartilhas semelhantes. Vídeos com gestos gentis, inovações de alta tecnologia, declarações favoráveis de parceiros comerciais, crianças e animais fofos, além de destinos turísticos paradisíacos, ganham destaque.
 

Jornalistas que atuam nesses veículos têm perfis semelhantes aos de influenciadores, destacando as benesses do país e apresentando o posicionamento de Pequim em áreas como a guerra comercial com os Estados Unidos. Outro ponto em comum com as contas das mídias estatais é o selo “Mídia controlada pelo Estado: China”, parte da política de redes sociais da Meta, dona do Instagram e do Facebook.
 

Para Anne-Marie Brady, especialista no PC Chinês e professora na Universidade de Canterbury (Nova Zelândia), o método visa “controlar a narrativa” sobre o país. “Elas \[as mídias estatais\] estão autorizadas a usar essas plataformas, ao passo que indivíduos comuns na China não estão. A proibição do uso individual de redes sociais ocidentais também faz parte do sistema de propaganda do partido : controlar o ambiente informacional. Não é possível ter propaganda eficaz sem censura”, afirma.
 

A regulamentação chinesa exige que a conexão internacional passe por canais autorizados pelo Estado e proíbe organizações e indivíduos de estabelecer ou usar vias alternativas não aprovadas. Na prática, isso impede o uso de VPNs e outros meios para contornar o bloqueio ao conteúdo externo.
 

A autorização do regime é a justificativa para que as contas oficiais permaneçam no ar sem violar a legislação. Instituições como o Ministério das Relações Exteriores, consulados e embaixadas também têm perfis ativos em redes americanas, por exemplo.
 

Em relatório de 2018, a pasta afirmou que as missões diplomáticas utilizam plataformas como Instagram, Facebook e Twitter (atualmente X) para “promover a posição política e a filosofia diplomática da China”.
 

Entre os oficiais com perfil ativo nas redes está Mao Ning, principal porta-voz e diretora do Departamento de Imprensa, Comunicação e Diplomacia Pública das Relações Exteriores. Outros exemplos são Guo Jiakun e Lin Jian, também porta-vozes da pasta, e Zhao Lijian, diretor-adjunto da Divisão de Assuntos de Fronteiras e Oceanos.
 

Um estudo publicado pelo Instituto de Internet da Universidade de Oxford em 2021 mostrou que, à época, Pequim contava com cerca de 270 perfis em plataformas como Facebook e X para amplificar as visões do regime.
 

Organizações de direitos humanos como Human Rights Watch e Anistia Internacional caracterizam as restrições de acesso como censura, vigilância e repressão. Em seu relatório sobre liberdade online de 2025, a Freedom House afirma que, há mais de uma década, os usuários da internet na China enfrentam as piores condições do mundo em termos de liberdade na rede.
 

Margot Fulde-Hardy, pesquisadora das redes de influência chinesas e na empresa de análise Graphika, afirma que o objetivo final das autoridades é “contar bem a história da China”. “Estar em plataformas ocidentais que são proibidas dentro do país é uma forma de fazer isso”, diz.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Design sem nome (55) (1)

Notícias relevantes

ACM Neto aposta em Zé Cocá visando virar o jogo na região de Jequié; ex
Câmara de Salvador propõe título de cidadão soteropolitano a Flávio Bolsonaro
Erick revela que atuou contra o Corinthians sem estar 100% fisicamente: "Não con...
Justiça da Bahia condena quatro homens a 12 anos de prisão por tráfico de drogas...
Mais de 10 mil animais são apreendidos em rodovias da Bahia, aponta Polícia Rodo...
No CondComunica, Marcelle Moraes defende lei que protege animais comunitários em...
Motorista relata manobra arriscada de ônibus antes de atropelamento em Itambé
Carregando mais...