O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) autorizou a continuidade das pesquisas arqueológicas no chamado “terreno da Graça”, onde está previsto o empreendimento de luxo Largo da Vitória Square (LV Square), em Salvador. A decisão foi publicada no Diário Oficial da União (DOU) desta segunda-feira (6) e renova, por mais cinco meses, a licença vinculada ao projeto.
A autorização trata do Programa de Gestão do Patrimônio Arqueológico relacionado à implantação de um “empreendimento residencial misto na Rua da Graça”. O documento mantém como responsável técnico o arqueólogo Railson Cotias da Silva, que também é sócio da empresa executora das escavações, a Cotias e Dias Ltda. (Arqueólogos).
Com a renovação, seguem válidas as atividades de levantamento, análise e preservação de materiais arqueológicos encontrados na área, que fica em uma das regiões mais valorizadas da capital baiana. O trabalho conta com apoio institucional do Núcleo de Estudos e Pesquisas Arqueológicas da Bahia (Nepab), vinculado à Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc), responsável pela guarda do acervo coletado.
O Nepab, por meio de ofício enviado ao Iphan no dia 20 de março, endossou o pedido de renovação da continuidade dos estudos no terreno. O reforço foi encaminhado pelo professor Walter Fagundes Morales, que é coordenador no núcleo na Uesc.
As escavações já identificaram vestígios que remontam ao século XIX, além de evidências de ocupação urbana mais intensa nas décadas de 1930 e 1940. Segundo relatório da equipe obtido pelo Bahia Notícias, o sítio arqueológico, conhecido como “Casa dos Bondes”, revelou transformações no uso do solo, incluindo a existência de chácaras, roças e antigos sobrados em uma configuração urbana distinta da atual.
“Como há interferências invasivas da obra de engenharia em todo o lote e, ao mesmo tempo, as etapas de campo da pesquisa arqueológica foram baseadas em critérios de amostragem, novas descobertas têm surgido ao longo do processo. A maior recorrência de achados corresponde a materiais arqueológicos oriundos do descarte de pequenos objetos, grandes equipamentos e estruturas vinculadas aos reparos e à produção dos bondes”, diz o relatório.
A continuidade das pesquisas também prevê o aprofundamento dos estudos em fontes documentais, como mapas antigos, registros cartoriais, jornais e fotografias históricas, com o objetivo de cruzar dados materiais e históricos sobre a ocupação da área.
O empreendimento imobiliário, alvo das intervenções arqueológicas, é considerado de alto padrão e vem sendo acompanhado por exigências legais relacionadas à preservação do patrimônio histórico.
PATRIMÔNIO DE MOBILIDADE
O relatório aponta que o sítio é considerado um testemunho material crucial da evolução do transporte público em Salvador. Além do trabalho técnico de salvaguarda e coleta de amostras para estudos científicos, o projeto realiza ações de Educação Patrimonial, envolvendo a comunidade local, trabalhadores da obra e estudantes para socializar o conhecimento sobre a memória urbana da cidade.
Segundo a pesquisa, todo o terreno do empreendimento corresponde à área onde funcionou um antigo complexo de manutenção, produção e guarda de bondes de Salvador. O local abrigava uma estação com infraestrutura voltada para bondes de tração animal, incluindo instalações para o repouso, alimentação e tratamento dos cavalos e burros.
As escavações e o monitoramento revelaram uma narrativa arqueológica densa composta por estruturas edificadas, sendo identificados alinhamentos estruturais, muros e bases de concreto do antigo barracão, tanto em partes internas quanto externas, Além disso uma lixeira industrial foi localizada na porção posterior do barracão. Nesta área, segundo a pesquisa, contém uma grande quantidade de materiais descartados, como pequenos objetos, equipamentos de manutenção e componentes das composições férreas
ACHADO INÉDITO
A pesquisa aponta também que houve um “achado inédito” ao encontrar um cemitério de cavalos e burros durante as escavações. Os arqueólogos responsáveis afirmaram que os esqueletos, encontrados em “deposição primária” (articulados), comprovam o uso funcional de animais para a tração dos bondes antes da eletricidade.
No meio do século XIX, Salvador implementou os conhecidos bondes de burro. O transporte era movido à tração animal. Os primeiros registros de linhas do modal foi onde fica atualmente a Praça Castro Alves, indo até o Largo da Vitória.
Segundo reportagem realizada pelo g1, mais para o final do século, os bondes elétricos começaram a ser introduzidos em Salvador e chegaram a dividir espaço com os bondes de burro. A capital baiana chegou a ser considerada uma referência, e expandiu o transporte pela cidade. Veja como era a linhas que operavam: