sábado, 28/03/2026 – 00h00
O forró pode atingir um novo patamar de reconhecimento internacional. O estilo, nascido no Brasil e característico da região Nordeste/Norte, busca o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade junto à Unesco, cinco anos após o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) declarar as matrizes tradicionais do forró como Patrimônio Cultural do Brasil.
A luta pode parecer recente para quem não acompanha os bastidores, mas, de acordo com o cantor e compositor baiano Del Feliz, que se tornou um embaixador da cultura nordestina e do forró no mundo, a busca pelo reconhecimento internacional é antiga e árdua.
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Em entrevista ao Bahia Notícias, o forrozeiro, que se tornou padrinho da campanha, relembrou o caminho feito pela Associação Cultural Balaio Nordeste (ACBN), organização voltada para a valorização, preservação e difusão do forró tradicional (pé de serra) e da cultura nordestina, que existe desde 2008 e é presidida pela produtora cultural Joana Alves.
“Esse processo começou em 2011, através do Balaio Nordeste e de Dona Joana na luta para que o forró se tornasse o patrimônio cultural do Brasil. Eu fui convidado para representar, a princípio, a Bahia, e culminou que, nessa andança por 14 estados, Dona Joana acabou me convidando para ser o padrinho nacional da campanha durante o percurso, pelo meu empenho, pela minha presença; e em 2021 nós recebemos o título de Patrimônio Cultural do Brasil. E a partir dali eu comecei essa caminhada já no processo para o forró se transformar em patrimônio da humanidade, uma outra contribuição. Já estive na Unesco, fomos recebidos pela Fumiko Ohinata \[secretária da Convenção de 2003 para a Salvaguarda do Patrimônio Cultural Imaterial na UNESCO\], estivemos agora em Lille \[França\] recentemente no Le Grand Sud \[Festival Internacional do Forró de Raiz\], fazendo um super show junto com Elba, Santana, Mestrinho, em que nós formalizamos ali um início dessa caminhada. Então, tem toda uma história.”
Na última semana, Del representou a Bahia na entrega do dossiê de candidatura do Forró de Raiz a Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade à Unesco, em evento realizado em João Pessoa, na Paraíba.
O encontro reuniu representantes dos nove estados do Nordeste, além de integrantes do movimento cultural, e marcou uma etapa do processo que agora segue para análise internacional. A mobilização envolve os nove estados nordestinos, além de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espírito Santo, Goiás e Distrito Federal, governos, fóruns culturais e artistas.
“Na última semana, aconteceu a entrega formal ao Iphan dos últimos documentos, seguindo todas as recomendações da Unesco, para que o forró se torne patrimônio da humanidade, o que provavelmente acontecerá em 2030.”
A demora para o reconhecimento do título pode causar estranheza, mas, de acordo com Del, é uma regra da Unesco.
“Já divulgaram que acontece em dois anos e tal. Normalmente acontece a votação de dois em dois anos, mas eles não repetem quando se tem algo avaliado daquele país. E agora em 2026 o Brasil já está tendo um outro bem imaterial sendo avaliado e isso faz com que o Brasil não participe em 2028. O forró entra na fila para ser avaliado em 2030, provavelmente com a consagração.”
O QUE MUDA PARA O FORRÓ COM O RECONHECIMENTO?
Mas, afinal, o que muda para o gênero o reconhecimento com o título de Patrimônio Imaterial? Declarado patrimônio cultural e imaterial do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o alcance internacional tem como propósito, além do reconhecimento mundial da arte feita no país e propagada em todo o globo terrestre, o reforço das políticas públicas para a salvaguarda do forró.
“Existe toda uma salvaguarda prevista a partir do momento que você se torna patrimônio. Então, passa a ser uma responsabilidade política. E eu acho que é fundamental, porque a gente está falando de um bem que nos identifica, de um bem que nos traz, inclusive, benefícios econômicos. Então, a cultura devolve. Não precisa nem falar da festa junina, que é a maior festa da Bahia e do Nordeste, e isso com dados comprovados. Tem a sua expressão emotiva, cultural, sentimental, mas também do ponto de vista econômico e turístico, porque é uma festa da nossa alma que atrai gente do mundo inteiro para conhecer.”
Para Del, é fundamental para a preservação do forró e de tudo que envolve o gênero, que ele esteja no patamar de patrimônio. O artista ainda citou um ponto delicado: a descaracterização de um dos maiores movimentos de propagação do forró, o São João.
“A gente precisa ter uma perspectiva de proteção desse bem, que inclusive se encontra ameaçado do ponto de vista dos grandes espetáculos que se transformaram as festas juninas e com a sua descaracterização; e o patrimônio registrado, reconhecido, se torna uma responsabilidade maior também do ponto de vista institucional e administrativo político.“
Defensor da Lei da Zabumba, que foi aprovada pela Câmara de Vereadores de Salvador em 2017, e que sofreu uma alteração em 2020, último ano de governo de ACM Neto (DEM), Del reforçou ao Bahia Notícias a importância do cumprimento da lei que prevê a obrigatoriedade de se ter 10% da verba destinada para a festa voltada para a contratação de artistas que expressam a cultura baiana e regional nos eventos culturais, shows e festejos realizados pelos entes públicos, com verbas oriundas do município.
A versão estadual da Lei da Zabumba também existe e é de 2015. Ela prevê que a contratação de artistas e conjuntos musicais, para eventos culturais, shows e festejos realizados pelos entes públicos, com verbas oriundas do Estado da Bahia, deve obedecer a percentual mínimo de 60% de profissionais que expressam e valorizam a cultura baiana. No entanto, artistas reclamam de sucessivos descumprimentos da legisção.
“Nós todos estamos trabalhando por isso. Eu sou um defensor de que as festas culturais se mantenham na sua essência para que elas continuem sendo viáveis economicamente e continuem belas, porque não faz sentido as festas se transformarem em uma festa de qualquer coisa pelo mero apelo. Não pode substituir a nossa cultura, sob pena de a gente perder, das nossas gerações não terem acesso a algo que é tão valioso para nós e também já existe um reconhecimento.”
Em 2026, um teto de gastos estipulado pela União dos Municípios da Bahia (UPB), em parceria com o Ministério Público da Bahia (MP-BA), por meio da campanha ‘São João sem Milhão’, estabelece que as contratações para a festa não ultrapassem o valor de R$ 700 mil.
“Eu já venho lutando há muitos anos, pedindo exatamente que as festas culturais tivessem uma reserva do recurso público destinado à manutenção dessas características, que trazem tanto essa beleza sentimental, essa coisa cultural, como também a viabilidade econômica, porque a cultura de fato dá lucro, e existem pesquisas para isso. E aí as descaracterizações vieram com os artistas que estão na grande mídia, milhões investidos numa situação que tem empobrecido essas festas e tornado elas uma festa qualquer.”
Para se ter uma ideia, em 2025, de acordo com dados do Painel da Transparência dos Festejos Juninos do Ministério Público do Estado (MP-BA), entre os 10 artistas mais contratados para tocar no São João, 7 eram cantores de arrocha, ritmo que não está dentro do guarda-chuva das matrizes do forró, que inclui o xote, xaxado, baião, chamego, a quadrilha, o arrasta-pé e o pé de serra.
“Nossa expectativa é que a gente tenha uma sensibilidade do poder público no sentido de que haja uma reserva daquele recurso que é investido numa festa cultural seja destinado para a valorização daqueles fazedores dessa cultura. Aqueles artistas que estão aqui, que são da cultura e que pretendem adentrar esse grande palco em que se transformaram as festas juninas. É muito justo, porque a festa nasceu, cresceu e se tornou o que é por conta dessa beleza autêntica. Não faz o menor sentido você agora transformar numa outra coisa, sob pena de a gente ter um prejuízo muito grande.”
NOVA GERAÇÃO
Mas, e para além das políticas públicas, como salvaguardar o forró? A missão está nas mãos da população. Preservar a história, fazer com que ela circule e lutar pelo cumprimento desses direitos. O cantor fez um alerta sobre a descaracterização do ritmo e a forma como tudo pode ser forró em época de São João, tudo pelo interesse financeiro.
“Nós temos uma chuva de artistas nordestinos e brasileiros chegando com uma nova proposta, com aquilo que se chama de piseiro, mas a gente já tem uma história que vem de Mastruz com Leite, de Aviões do Forró, de Magníficos… Então, é muito sedutor para muita gente colocar o nome de forró nos seus trabalhos. Existe muita coisa que é chamada de forró que na verdade é uma descaracterização, né? Tem algumas batidas que não têm nada a ver com forró.”
Para Del, é importante que a tradição seja preservada e é possível ver uma vontade da nova geração em entender onde tudo começou. O artista ainda exaltou o projeto feito por Mestrinho, João Gomes e Jota.pê, o ‘Dominguinho’, que está em turnê internacional e conseguiu voltar com as raízes do forró.
“A reflexão que a gente tem que ter, e eu acho que ela é fundamental, é que quem construiu isso tudo foi, de fato, a música tradicional. Isso virou uma marca identitária muito potente para todos nós. Se você encontrar uma sanfona, uma zabumba e um triângulo em qualquer lugar do mundo, você vai identificar que a gente está falando do forró, e a gente tem a responsabilidade de preservar isso. \[…\] Nós temos algo que posso dizer talvez antagônico: uma predileção do pessoal do forró de fora do Brasil por fazerem todos os seus trabalhos em cima de uma música tradicional, daquela música dos anos 70, 80, 60, da música de raiz. Nós temos muitos jovens antenados, preocupados com a música de qualidade e a prova de que há um público muito grande atraído por isso é o grande sucesso do projeto Dominguinho, do meu amigo Mestrinho, que é hoje um dos maiores acordeonistas do mundo, junto com Jota.pê e João Gomes, um projeto simples com a música tradicional que ganhou o Brasil inteiro e ganhou o mundo.”
FORRÓ FOR ALL – FORRÓ PARA TODOS
A história de que o termo forró surgiu do inglês ‘for all’ é uma lenda linguística, mas o ritmo é realmente para todos e de todo o mundo. Ao site, Del Feliz, que já se apresentou em todos os continentes, afirma que o reconhecimento internacional do gênero já acontece por parte do público.
“A gente tem um monte de pessoas de outros países já envolvidos pelo forró, apaixonados pela nossa cultura, aprendendo a nossa língua, tudo sobre a nossa cultura e a nossa arte por causa do forró. O forró é um elo fenomenal, ele é um símbolo para nós. É muito mais que um aglomerado de ritmos, ele é um elo de fortalecimento do nosso estado, do nosso Nordeste e do nosso país, sem dúvida nenhuma.”
No papo com o BN, o forrozeiro relembrou um momento emocionante da carreira quando se apresentou no Brazilian Day no Japão e conheceu um grupo de forró que nasceu no país asiático.
“É uma coisa tão incrível como é muito natural. Por exemplo, eu me emocionei muito a primeira vez que eu fui ao Japão e subiu para cantar comigo no palco uma cantora chamada Lico, de um grupo chamado Flor de Juazeiro, um grupo só de japoneses. Lico cantou comigo ‘Espumas ao Vento’, tão emocionada, e eu me emocionei também. Quando descemos do palco, eu tentei conversar com ela achando que ela falava português; ela não sabia dizer uma palavra, mas cantou divinamente a música e depois ela falou: ‘Olha, eu pretendo aprender português por causa do forró, mas eu não sei falar nada’. Essa aproximação é incrível. Na França nós temos Marion Lima, que eu conheci em 2009 como um exemplo, mas são dezenas, eu diria centenas de representantes do forró no mundo. ”
A busca pelo reconhecimento internacional do forró segue, ainda que o título só venha a ser dado em 2030. O novo material será encaminhado pelo governo brasileiro e poderá levar até dois anos em análise, mas, para Del, a essência do forró vai prevalecer em qualquer circunstância.
“O forró é um símbolo da alma de um povo, então carrega tudo dentro ali da nossa arte, da nossa cultura e por isso merece um respeito muito grande.”*