A polêmica entre Kylian Mbappé e a senadora paraguaia Celeste Amarilla ganhou um novo capítulo nesta terça-feira (7). Dias após o atacante francês classificá-la como uma “mulher desprezível”, a parlamentar publicou uma longa carta aberta nas redes sociais, na qual exige um pedido público de desculpas e afirma que poderá recorrer à Justiça por considerar a declaração uma forma de violência política de gênero.
A troca de acusações teve origem após a vitória da França sobre o Paraguai nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026. Inconformada com a postura de Mbappé durante e após a partida, Amarilla publicou mensagens de teor racista nas redes sociais, posteriormente apagadas.
Na nova manifestação, a senadora admitiu que escreveu os comentários “com o sangue fervendo” após a eliminação da seleção paraguaia, mas afirmou ter se arrependido e removido as publicações pouco tempo depois.
Apesar disso, ela argumenta que também foi alvo de ofensas ao ser criticada pelo camisa 10 francês.
“Quem é você para me chamar de indigna ou desprezível sem sequer me conhecer? Isso é violência de gênero, pura e simples. Violência política contra uma mulher que chegou onde está pelo voto popular do seu povo”, escreveu.
Ao longo da carta, Amarilla procurou separar suas críticas ao jogador da relação que mantém com a França. Segundo ela, o problema nunca foi o país europeu, mas sim a atitude demonstrada por Mbappé durante o confronto.
A senadora relembrou declarações do atacante antes da partida e afirmou ter interpretado algumas falas como provocações direcionadas ao Paraguai. Também criticou a postura do francês em campo, acusando-o de demonstrar arrogância e desrespeito aos adversários.
Outro ponto destacado foi o momento após o apito final. Amarilla afirmou que Mbappé teria se recusado a cumprimentar o goleiro paraguaio e comemorado a classificação de maneira provocativa diante dos jogadores rivais.
“Isso não se faz. O cumprimento entre adversários é um dos gestos mais nobres do esporte, tanto na vitória quanto na derrota”, escreveu.
No trecho final da carta, a parlamentar elevou o tom e cobrou uma retratação pública do astro francês.
“Retrate-se comigo, honre a cidadania francesa e peça desculpas. Caso contrário, poderei iniciar medidas judiciais por violência de gênero”, declarou.
A controvérsia começou no último sábado, logo após a classificação da França às custas do Paraguai. Na ocasião, Amarilla utilizou o X (antigo Twitter) para atacar Mbappé com ofensas racistas e xenófobas, gerando forte repercussão internacional.
As publicações foram apagadas posteriormente, mas o caso continuou repercutindo após a resposta do jogador francês, que classificou a senadora como uma “mulher desprezível” e condenou o teor das mensagens.
Até o momento, Mbappé não se pronunciou sobre a carta aberta divulgada pela parlamentar paraguaia. Leia abaixo a carta de Amarilla na íntegra:
“Carta aberta a Mbappé
O problema é entre você e eu. Nunca disse nada contra a França. O meu problema é com você. Estudei em um colégio francês dos 2 aos 17 anos, quando concluí o ensino médio. Sou quem sou graças ao Colégio da Imaculada Conceição e estou onde estou graças à formação que recebi. Cantávamos a Marselhesa, honrávamos a bandeira francesa junto com a nossa, falo francês e adoro visitar a França. No último Natal passei com minha família em Courchevel e recebemos o Ano-Novo em Saint-Tropez. A França não tem nada a ver com isso; o problema é você.
O que me incomoda profundamente é a sua arrogância e o seu desprezo. Antes mesmo da partida, você disse: “Se for preciso colocar as mãos na merda, vamos colocá-las.” Não somos estúpidos. Entendemos perfeitamente que a “merda” era a seleção paraguaia — e a seleção representa todos nós.
Depois você disse que iam “tirar o smoking”. Também entendemos essa provocação: vocês seriam os elegantes de smoking, enquanto nós, pobres e brutos, nem saberíamos o que é um smoking. Mesmo assim, todo o Paraguai permaneceu em silêncio, inclusive eu. Nós suportamos.
Durante a partida, sua atitude foi arrogante. Seu desprezo por cada jogador era evidente, como se eles lhe causassem nojo. Sem sequer cobrir a boca, você disse “la concha de tu madre”, uma expressão extremamente ofensiva na América Latina, e você sabe disso. Foi por isso que a usou.
Isso me machucou, e machucou muito todo o meu país. A França deveria cobrar uma postura diferente de você, porque é um país de cavalheiros, com séculos de história e de “savoir-faire”. A França deveria reprovar a sua conduta.
Meus posts foram feitos com o sangue fervendo. Esse sangue mestiço, bela mistura de sangue indígena e espanhol que corre nas minhas veias, estava fervendo quando você zombava daqueles imensos jogadores paraguaios que lutaram de igual para igual até o fim da partida, e por isso escrevi aquelas mensagens.
No entanto, pouco depois me arrependi de ter respondido com os mesmos insultos que eu mesma recebo. Eu também sou desprezada por ser morena, latina; somos chamadas de “sulacas”. Arrependi-me e apaguei a publicação. Percebi que estava repetindo padrões que detesto. Entendo que isso possa tê-lo incomodado, porque é humilhante.
Agora exijo que você também se retrate comigo e me peça desculpas.
Eu também não vou tolerar sua violência. Você não me conhece, não faz ideia de quem eu sou e não tem direito algum de dizer que SOU UMA MULHER DESPREZÍVEL, INDIGNA DO CARGO QUE OCUPO.
Sou senadora da República do Paraguai, eleita pelo voto popular. Antes disso, também fui deputada nacional, igualmente eleita. Milhares de paraguaios e paraguaias votaram em mim e me consideram sua voz. Meu principal compromisso é representar o povo paraguaio, dizer aquilo que eles não podem dizer e defender meu país até o fim da minha vida. É isso que esperam de mim.
Represento meu país porque fui eleita em eleições livres. Fui escolhida para fazer suas leis e ser sua voz. Você não faz ideia do que significa ser eleita para defender seu país e representar seu povo. Fui eleita senadora nacional; não sei se você tem dimensão da importância do cargo que exerço.
Quem é você para me chamar de indigna ou desprezível sem sequer me conhecer?
Isso é violência de gênero, pura e simples. Violência política contra uma mulher que chegou onde está pelo voto popular do seu povo.
Justamente você, que demonstra desprezo por uma mulher. Eu não ataquei sua cor, suas preferências ou qualquer característica pessoal. Você atacou minha condição de mulher e de política.
Retrate-se comigo, honre a cidadania francesa e peça desculpas. Caso contrário, poderei iniciar medidas judiciais por violência de gênero.
Celeste Amarilla”