Duas Rosas: Ex

A troca de mensagens entre a ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, Joneuma Silva Neres, e o ex-deputado federal Uldurico Júnior revela que, após a fuga dos 16 detentos da unidade, ambos passaram a adotar um discurso convergente de críticas à atuação da Secretaria de Administração Penitenciária e Ressocialização (Seap), ao mesmo tempo em que tentavam reagir ao avanço das investigações.

O Bahia Notícias obteve acesso ao depoimento da ex-diretora e detalha as informações encontradas na delação ao longo de cinco reportagens em uma série chamada “Duas Rosas”, sendo esta, a segunda. Nesta quinta e última matéria, iremos detalhar as críticas de Joneuma e Uldurico à Seap, afirmando que a pasta costumava acorbertar as fugas, além de contar sobre um plano para transferir a culpa do plano de escape dos detentos para a cúpula da pasta.

O ABAFA
Em um diálogo registrado no dia 18 de dezembro de 2024, um dia após ser afastada do cargo por decisão judicial, Joneuma afirmou de forma direta: “Sim, mas quando a seap quer ela abafa”. 

A mensagem foi enviada após Uldurico comentar que o caso já havia chegado ao conhecimento de lideranças políticas, mas ganhava repercussão. Nas mensagens consultadas pelo Ministério Público da Bahia (MP-BA), a resposta da ex-diretora sugere a percepção de que a secretaria teria, quando conveniente, minimizado ou contido a repercussão de episódios semelhantes.

Segundo os elementos reunidos pelo MP-BA, a percepção de que a Seap “abafava” situações críticas passou a ser incorporada como linha de defesa pelo grupo. Em construções narrativas alinhadas entre Joneuma e Uldurico, a ex-diretora chegou a listar fugas ocorridas, incluindo episódios com uso de armamento pesado em anos recentes, numa tentativa de relativizar a gravidade do caso investigado.

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As mensagens analisadas também descrevem Joneuma em estado emocional abalado. Em meio ao avanço das investigações, ela buscava apoio em Uldurico, relatando medo de prisão e sensação de abandono, especialmente após o afastamento do cargo. Em uma dessas conversas, ela chega a dizer que a nova direção que assimiu a penitenciária já estaria articulando contra sua administração.

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COVARDIA E COMBINADO
Enquanto Joneuma sustentava essa leitura, Uldurico Júnior adotava um tom mais direto nas interlocuções políticas. Em mensagens enviadas ao ex-ministro Geddel Vieira Lima, no dia 21 de dezembro de 2024, ele criticou a condução da secretaria diante das oitivas realizadas com servidores. “Olha o que a seap está fazendo lá. Forçando gente a fazer depoimento contra mim e a primeira mulher diretora da história. Estão sendo covardes”, escreveu.

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Uldurico tenta culpar Seap e argumenta que Joneuma seria perseguida 

As conversas também mostram que havia preocupação constante com o conteúdo desses depoimentos. Joneuma monitorava quem estava sendo ouvido e chegou a identificar, em diálogo com seu advogado, ao menos duas testemunhas que poderiam incriminá-la, citando nominalmente um prestador de serviço.

Esse movimento foi descrito nos próprios diálogos como uma espécie de “caça a depoimentos”, em referência à tentativa de identificar e antecipar o que estaria sendo dito por funcionários do presídio às equipes do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e do Grupo de Atuação Especial de Execução Penal (Gaep).

O nível de tensão aumentou em relação ao coordenador operacional da unidade, Welington Oliveira. Joneuma demonstrava receio de que ele tivesse sido “mal instruído” em seu depoimento e que suas declarações pudessem embasar pedidos de prisão. Ao ser informada da possibilidade de uma ordem judicial contra o servidor, ela articulou uma forma de avisá-lo, temendo que ele comparecesse às oitivas e revelasse informações sob pressão.

Na mesma linha, Joneuma também buscou atribuir responsabilidade à cúpula da pasta. Ela afirmou ter encaminhado ofícios ao então superintendente de Gestão Prisional, Luciano Teixeira Viana, relatando falhas estruturais e riscos na unidade, mas que as demandas não teriam sido atendidas. A estratégia indicava uma tentativa de transferir a omissão para instâncias superiores da administração penitenciária.

TRANSFERÊNCIA
Uldurico e Joneuma chegaram a planejar a transferência da culpabilidade da fuga à Seap e sua cúpula. A ex-diretora resgatou as mensagens que teriam sido enviadas a Luciano Teixeira, pedindo as ações corretivas na unidade penitenciária. Uma espécie de “ofício retroativo”, com referência ao mês de julho de 2024, chegou a ser montado por Joneuma para servir como uma comprovação. 

Persistindo no plano, no dia 21 de dezembro de 2024, Uldurico enviou mensagens a Geddel com o objetivo de atribuir a culpa a terceiros, mais especificamente, no então superintendente de Gestão Prisional da Seap, Luciano Teixeira. Em uma dessas mensagens, Uldurico afirma expressamente: “Parece que o Luciano está por trás da fuga dos presos de Eunápolis”.

Uldurico também enviava a Geddel links de matérias jornalísticas encomendadas por ele no site “Gazeta da Bahia” e documentos oficiais de cobrança para sustentar a tese de que a culpa seria da Seap e de sua cúpula.

Todavia, a tentativa, no entanto, foi repreendida por Geddel. No dia 22 de dezembro de 2024, ele encaminhou um áudio enfurecido a Uldurico. Na gravação ele afirmou que as reclamações “estavam chatas” e que iria mostrar “as cagadas” feitas por Joneuma no presídio de Eunápolis. 

A SÉRIE DUAS ROSAS:

O INÍCIO DE TUDO

A primeira reportagem mostrou que Joneuma conheceu Uldurico Júnior ainda quando atuava em Teixeira de Freitas e que a aproximação evoluiu para uma relação de confiança. Segundo a delação, ele já frequentava unidades prisionais e realizava reuniões a portas fechadas com detentos. 

Com a nomeação dela para a direção do presídio de Eunápolis, em março de 2024, o MP-BA aponta que Uldurico passou a ter influência direta na unidade, utilizando a posição para viabilizar interesses ilícitos. Logo no início da gestão, foram autorizadas entradas de eletrodomésticos e concessão de benefícios a presos ligados ao PCE, em um contexto que também envolvia captação de votos de detentos e seus familiares mediante pagamento.

Ainda na primeira matéria, foi detalhado que, após a derrota eleitoral em 2024, Uldurico passou a pressionar Joneuma para obter recursos junto à facção. A negociação evoluiu para um acordo de R$ 2 milhões — as chamadas “duas rosas” — para viabilizar a fuga de lideranças criminosas. A execução ocorreu em 12 de dezembro de 2024, com uso de ferramentas dentro da unidade e apoio armado externo. 

Após o episódio, Joneuma foi afastada, exonerada e posteriormente presa. As mensagens revelam ainda o nervosismo da ex-diretora, que relatava estar “no pior momento da vida” e temia a prisão, além de um encontro com Uldurico em Salvador, onde, segundo ela, houve ameaça para que não revelasse detalhes do esquema.

COBRANÇA DE GEDDEL?

Na segunda reportagem, a delação apontou o ex-ministro Geddel Vieira Lima como possível beneficiário de parte da propina, com indicação de que metade do valor ficaria com ele. Nas mensagens, Geddel aparece como “chefe” e atuava como interlocutor político, orientando cautela e, em alguns momentos, repreendendo Uldurico.

Também há registros de cobranças relacionadas ao pagamento da propina e preocupação do ex-deputado com a repercussão dentro do MDB, temendo retaliações caso não cumprisse compromissos financeiros.

DETALHAMENTO DA FUGA

A terceira matéria descreveu a organização da fuga ao longo de cerca de 40 dias. A negociação foi formalizada em novembro de 2024, após encontros presenciais e ligações mediadas por integrantes da facção. Presos foram concentrados em celas específicas e tiveram acesso a ferramentas como furadeiras. 

A fuga contou com apoio externo de homens armados com fuzis, que atacaram a unidade enquanto os detentos escapavam. Há ainda relatos de regalias concedidas dentro do presídio, incluindo eventos atípicos, como a realização de um velório.

FAMILIARES DE ULDURICO

A quarta reportagem detalhou o pagamento de valores antecipados, incluindo cerca de R$ 170 mil repassados a Uldurico e pessoas próximas. O dinheiro foi entregue em espécie, armazenado em caixas de sapato, e também transferido via PIX. 

Parte dos valores foi direcionada ao pai do ex-deputado, conforme registros de mensagens e dados de geolocalização. A delação aponta ainda novos pedidos de dinheiro e a atuação de Joneuma como intermediadora após o primeiro pagamento.*

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